quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Violão Trovão na gameleira (em confecção), Trançadeira, violinha mineira (em confecção) e Bandolim Frida. Foto - Jardel Vieira. 

Os instrumentos artesanais carregam consigo os gestos das mãos: lixar, aplainar, limar, colar, envernizar, ajustar, medir... impregnam-se do contato com o corpo de quem os fez, já que foram abraçados várias vezes no curso de sua confecção. Alisados, comparados, cheirados, sentidos. Eles nasceram de gestos humanizados, marcados que foram por ranhuras, cicatrizes e registros que mãos imprecisas neles imprimiram o incerto gesto humano. Foram manchados com pingos de sangue, motivo de um prego mal batido. São parte de nós, porque os trouxemos ao mundo ao mesmo tempo em que nos presentificamos como artífices. Corpo humano e corpo musical se mesclam, numa conjunção de encontros que moldam objeto e sujeito, mutuamente. Não nascem somente instrumentos musicais dos gestos artesanais: surgem destes fazeres os sujeito sensíveis atentos ao compromisso com a sustentabilidade do planeta e ao valor do gesto encarnado. São assim os objetos portadores das cem mil histórias que se passaram entre a ideia e a finalização de cada instrumento. São resultados de ideias em perspectiva, e de uma trajetória da confecção, apontadores de um percurso que se desdobrou em problemas, soluções e encontros estéticos. Desse contato intenso e fraternal entre o objeto confeccionado e o sujeito entalhado revela-se a travessia que marca a fogo esta relação. O instrumento, neste momento, cria o artífice, inscrevendo-no num horizonte de surpresas e dificuldades não antevistas. Fazer é, assim, carregar de sentido o desafio da ultrapassagem. Viver, afinal, é dispor-se a atravessar. Júnia Sales

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

..."As muitas CARAS DÚBIAS DE KAIROS"...

Quando penso na importância da boa CULTURA para a PSIQUE humana, o que me chegou à cabeça muito rápido no dia de hoje, foi esta ambiguidade entre o TEMPO de CRONOS e o TEMPO da alma, KAIROS.
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 Num  dos filmes do cinema da SAGA de BATMAN o personagem Harvey Dent era um promotor público de Gotham City e aliado próximo de Batman. A imagem pública ética que encarnava era expressa numa conduta pessoal de bom comportamento como defensor da ordem e dos bons costumes.Ele se vestia muito bem e era bem elegante. Uma pessoa de moral e ética pessoal, aparentemente, ilibadíssima.


 Já em histórias mais recentes, mostradas no filme O Cavaleiro das Trevas, Harvey é vítima de uma emboscada arquitetada pelo Coringa, que resulta em seu rosto queimado, já que estava coberto por gasolina. O Coringa, depois, torna Harvey um psicopata, pondo a culpa da morte da namorada de Harvey, Rachel, na máfia de Maroni e no Comissário Gordon.
  O CORINGA maldoso e que encarnou uma imagem pública de BANDIDO, é o que me interessa como metáfora da HORRENDA CULTURA DE ALIENAÇÃO  das pessoas.
  Estou usando a imagem de um personagem do MAL para refletir sobre a cultura do tempo de CRONOS, transmitida para massas alienadas ao tempo de KAIROS, e que vai destruindo valores arcaicos de HUMANISMO, AMOR e da necessária boa EDUCAÇÃO  para a vida plena.



 Harvey Dent enlouquece depois que o chefe da máfia Sal Maroni joga ácido nele durante um julgamento, desfigurando o lado esquerdo do seu rosto.

  Assim, a reflexão que faço está mediada pelo uso que "andam fazendo", não interessa quem sejam eles ou elas,  da BOA CULTURA de RAÍZES arcaicas, que não tem as prisões do tempo de CRONOS que a tudo destrói, sem o compromisso com o essencial: A DIGNIDADE DA VIDA HUMANA PLENA, SAUDÁVEL e MULTIPLAMENTE RICA em VALORES CULTURAIS QUE NOS IDENTIFIQUEM COMO HUMANOS SENSÍVEIS e ÉTICOS.

 Sabemos que há uma diferença entre o que é a pessoa real e sua imagem pública. Nem sempre imagens públicas  IMACULADAS e BONITAS, tal é a cara boa de HARVEY, e que na área da CULTURA levantam bandeiras e  propostas pela boa cultura do TEMPO de KAIROS, teriam uma vivência pessoal da prática de ouvir boas músicas, assistir bons filmes, ler bons livros para o que demanda uma PSIQUE  que requeira o mínimo de alimento para o ESPÍRITO.


  Já que CRONOS trata-se de uma metáfora de um DEUS GREGO,  radicalmente associado ao trabalho e à materialidade da vida, estou colocando-o num lugar de destruidor das ALMAS humanas que anseiam por algo mais na CULTURA do que consumo de bens, tais como CDs, fitas, sites, ingressos, roupas e vaidades estéticas cirúrgicas. Estes objetos culturais desaparecem com o decorrer do TEMPO do trabalho. Muitas pessoas, a maioria delas, infelizmente, vão a FEIRAS de ARTESANATO, ou entram nos MUSEUS, ou vão ao CINEMA, com o intuito fundamental desviado para o consumo de bens e do alimento do estômago. Quanto desprezo ando vendo nos rincões, e nos ambientes urbanos de MINAS GERAIS, pela CULTURA POPULAR de raízes arcaicas! O consumo tem se vingado como prioridade. O consumo de bens que não duram na alma humana  têm como CRONOS  o "deus" GESTOR destes tempos atuais do alimento das vaidades pessoais e coletivas.

  A arte criativa e arcaica das FOLIAS de REIS,  dos CONGADOS nas TRADIÇÕES  DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO dos PRETOS,  dos CATERETÊS, do BOI BUMBÁ, dos BLOCOS da NEGA MALUCA do CARNAVAL do NORDESTE brasileiro, me traz hoje, como sujeito com alma mais sensível e um pouco mais educada do que na minha juventude, entradas nos tempos da minha ALMA, onde reside em todos nós humanos, o SAGRADO e o PROFANO DEUS " KAIROS".

  O tempo de KAIROS é muito diferente do tempo da ambiguidade confusa, expressa nas duas caras do filme do BATMAN. KAIROS trata-se de uma cara de um DEUS GREGO sereno, que embora exiba em sua face o SAGRADO e o PROFANO, aparentemente ambíguos no nosso OCIDENTE urbano, não sofre por ver algo de MAL no fundo de SI MESMO.

  O TEMPO de KAIROS integrou as duas metades, O BEM e o MAL, com harmonia, pois sabe KAIROS  (e se quisermos acessaremos este TEMPO), que o MAL e a escuridão que ainda temos em nós, trata-se do remédio  DIALÉTICO que a  vida nos demanda em forma de libido de prazer e arte. Dizia RÚBEM ALVES que os GREGOS tiravam leite de PEDRA, ou seja, diante do trágico e do melancólico os GREGOS criavam a BELEZA.

  O triângulo dentro do círculo  trata-se de uma representação alquimista da tradição GNÓSTICA na Idade Média, da imagem da conquista do OURO da ALQUIMIA, escondido no interior do triângulo, preso dentro do círculo. Assim, o círculo seria o CORPO e a PSIQUE na totalidade, e que quando a PSIQUE não avança permaneceria presa no fundo do triângulo.  O sofrimento e a GNOSE SAGRADA E PROFANA  poderiam  impor um FOGO SAGRADO para a saída deste olho sagrado, SÍMBOLO do ESPÍRITO,  das mordaças da ALMA e do CORPO.

 Assim, do escuro alquímico do CHUMBO e da frieza impura de SATURNO os alquimistas procuravam a LUZ dourada do OURO, através da transição sofrida da vivência do sofrimento bem justificado:
                            "O QUE INTERESSA é A OPUS (... a OBRA...) ALQUÍMICA"...

Todos estes saberes arcaicos encontram-se concentrados no fundo da PSIQUE humana, em forma de identidades CULTURAIS humanas profundas e que nos chegam nos sonhos noturnos e ou experiências numinosas com plantas e animais. Cada vivência em trânsito CULTURAL identitário, levando-nos através dos meandros da boa cultura de raízes sagradas e arcaicas, poderia contribuir para que nossas vidas tenham mais sentido na busca de algo mais do que CONSUMIR e CONSUMIR.


  A BOA CULTURA SAGRADA E PROFANA nos remete a KAIROS, o TEMPO do DEUS da criança que brinca com BARCOS de PAPEL  feitos  das gravatas enrustidas dos adoradores dos TEMPOS sem ÓCIO. Suas gravatas mortais os amordaçam na raiz superficial sem VEREDAS profundas do TEMPO da tirania do DEUS CRONOS do CONSUMISMO.

Afinal, o alimento do ESPÍRITO com a BOA CULTURA do TEMPO de KAIROS poderá nos fazer amadurecer novas vistas mais profundas fazendo-nos enxergar mais rápido com os óculos da BOA CULTURA do TEMPO de KAIROS, muito mais potentes. Veríamos com mais acuidade   as CARAS AMBIVALENTES dos muitos e muitas DUAS CARAS que entram em nossas casas da PSIQUE, muito mais rápido do que imaginávamos.

Gisnaldo Amorim Pinto.
29 de NOVEMBRO 2017



terça-feira, 28 de novembro de 2017

A escrita a fogo é tão antiga quanto a presença do fogo na vida humana. Registros de cunho pirográfico datam de cerca de 10 mil anos. A pirografia consiste em inscrever com fogo uma superfície tal como madeira, papel, cortiça, couro, etc. Nesta imagem, Júnia Sales escreve a palavra Amor em uma superfície de gameleira. A foto é de Jardel Vieira. 2017.